Relato Audax 300 km 2014

Relato Audax 300 km 2014 – segunda participação

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Quando já percorremos um trajeto com esse nível de dificuldade imaginamos ser capazes de concluir pela segunda vez, na teoria, a primeira experiência é sempre a pior. Mas não foi exatamente o que aconteceu. Vários foram os fatores que fizeram deste, um dos mais difíceis desafios que já conclui.
Uma das características do Audax é a autossuficiência, porém é sempre mais agradável pedalar em companhia de um grupo. Ademir, Tiago, Vera, Silvia e eu formamos um grupo no Audax 200 km, a Silvia optou por não pedalar conosco desta vez, mas ficou na torcida.
Depois de estarmos com as bikes, acessórios e roupas adequadas, seguimos para o local de largada. Apesar de a temperatura estar baixa, e as previsões desanimadoras, o frio iria soprar com força durante a noite, o Tiago jurava não sentir frio, o que fez dele a sensação durante toda a prova.
Às 22:00h saímos de Florianópolis sentido ao PC1, no km 100, em Itajaí. O aquecimento aconteceu aos poucos. Os ciclistas foram se dividindo em pequenos grupos, nós dentro do possível, nos mantivemos juntos.
Quando pedalamos temos privilégios visuais, podemos observar muitas coisas que não veríamos se estivéssemos de carro, e a imagem da lua foi um dos mais belos presentes que recebemos durante o percurso. O luar prateado surgiu no céu refletindo no mar, beleza sem igual, alguns ciclistas não resistiram e pararam para registrar as imagens, nós não fotografamos, mas da memória jamais apagaremos, tamanha era beleza.
No inicio do túnel, próximo a Camboriú, notamos ausência da Vera. Esperamos um pouco, não tínhamos certeza se ela estava à frente ou atrás do grupo, a escuridão e outros fatores como o barulho do vento e dos automóveis não permitiram que ouvíssemos quando ela pediu ajuda. Foi então que alguns ciclistas passaram e nos avisaram que havia furado pneu da bicicleta da nossa amiga. Em um local muito escuro, fomos obrigados a voltar na contramão, dividindo o acostamento de encontro aos outros ciclistas, momento tenso, porque o fluxo de veículos ainda era grande. Ao chegarmos ao local onde estava a Vera, já havia dois ciclistas dando apoio, o Ademar, que ao longo do caminho em alguns trechos nos faria companhia, e outro ciclista, que não encontramos mais, mas deixou ótima impressão. Logo o pneu foi consertado, e seguimos.
Dentro do túnel estava tão quentinho…, precisou coragem para sair e seguir. A impressão era que subíamos o tempo todo, revezávamos, ora um tomava frente, ora outro … Chegamos ao PC1 com tempo suficiente para saborear um macarrão integral com frango desfiado. O Tiago…, havia levado um sanduiche do tipo aberto, quando eu olhava para aquele macarrão e para o sanduba do Tiago, hummm!! …parecia uma delícia…, o sanduiche, claro!
Em Itajaí a sensação era de uns 3°graus, muiiiiito frio, estava congelante, só o Tiago não sentia frio. Ouvimos comentários de que alguns ciclistas, 23, haviam desistido por causa da baixa temperatura. Não podíamos perder tempo, e ficar parados nem pensar, o frio nos congelaria.
Próximo objetivo, chegar ao posto do Marquinhos, PC2 no Km 190. Mas para alcançar esse objetivo tínhamos pela frente o monstro que venceu o Tiago ano passado, o Morro do Boi, subida com um dos aclives mais fortes de todo o trajeto. Foi ali que percebi o quanto o Tiago estava determinado a concluir esse Audax, ele parecia estar matando o boi para um churras…rsrsrs, e não pedalando morro a cima. A subida não foi fácil, notamos alguns ciclistas parados pelo acostamento, alongando e tentando disfarçar o esforço extremo que haviam se submetido. Mas como sempre, depois de uma forte subida, curtimos a descida recuperando o folego. Passamos por Camboriú, ainda estava escuro, logo o dia começou a clarear e a tensão de pedalar a noite foi aliviada com a chegada do amanhecer. E, com o amanhecer novos espetáculos da natureza foram surgindo, paisagens de total encantamento. O nascer do sol sobre o mar, a nevoa pairando sobre o gado nas pastagens, muito lindo!
Com mais de 08 horas pedalando, o cansaço começava a se manifestar, os ciclistas paravam nos postos de pedágio e postos de gasolina para suprir as necessidades básicas, alimentação e banheiros. Nessa hora o foco tornava-se essencial, por algum tempo me mantive a frente do grupo. Mas por uma questão de imediatismo, talvez, eu tenha sido, do nosso grupo, quem mais penou para concluir esse Audax, havia trocado minha bike aro 26 pela 27,5 com pneus, como os speedeiros dizem, borrachudos, uma semana antes do Audax…(sem mais comentários).
O caminho até o posto do Marquinhos, PC2, virtual, parecia infinito, passamos por retas, subidas, trechos montanhosos e transito. A ansiedade e o cansaço pareciam pesar sobre a bicicleta, tinha a impressão que estava pedalando negativo, não rendia. O Ademir se manteve o tempo todo sem reclamar, na verdade pairava um silêncio entre o grupo que parecia falar mais que qualquer palavra, em determinado momento a Vera e eu olhamos para trás e não vimos o Ademir e o Tiago, diminuímos o ritmo, paramos e esperamos, eis que apareceram, “coisa de homens”.
Poucos quilômetros antes do PC2 um ciclista se acidentou, não sabemos como aconteceu, uma queda, havia muito sangue no rosto dele, parecia ter quebrado o nariz, me senti triste, afinal poderia ser um de nós.
Finalmente chegamos no PC2, 190km, mais ou menos 10:00h, registrar a passagem através de compra com ticket de caixa, nos alimentar, ir ao banheiro e descansar um pouco era o que precisávamos. Ali encontramos vários grupos, “o banana de pijama”, apelido carinhoso que a Silvia e eu encontramos para um ciclista do RS que conhecemos no 300km ano passado, um grupo com várias mulheres determinadas, e outros que interagiam para amenizar o que todos sentíamos, o cansaço. Quando estávamos quase saindo do PC2, chegou o Ademar, ele não conhecia o trajeto e fez menção de nos acompanhar, fomos juntos por algum tempo.
O objetivo, Pântano Sul, PC3, Km 237, agora estávamos pedalando na grande Florianópolis, o contexto mudou completamente, enfrentávamos além do transito, trechos sem acostamento, várias subidas curtas e fortes, os pedestres e a dificuldade de acertar o caminho. As marcações utilizadas nos Audax anteriores não haviam desta vez. Tínhamos que nos guiar por um roteiro entregue no dia da prova, e ficarmos atentos para não sermos traídos pela memoria do trajeto do Audax 200km. Para nós que não somos da região não foi fácil, outros grupos também se perderam. Pedalando, de quilometro em quilometro, curtindo os belos lugares e tentando escapar de um carro e outro, ainda tivemos que enfrentar uma criatura, sei lá, louca! Um ser de bicicleta, não era um ciclista, nem um bicicleteiro, acho que estava mais para um “bissiclista”, entrou no meio do grupo e não nos deixava passar, ficava cruzando na frente de um e outro, invadindo o trânsito e provocando a todos, esse ser, nos acompanhou por alguns kms. Sempre vamos nos deparar com algo diferente, esse era realmente diferente.
Pântano Sul, chegamos! PC3, montado em local sem estrutura, sem banheiros, mas nos ofereceram água, frutas, sucos e biscoitos. A temperatura subiu, tínhamos que nos livrar dos agasalhos, essa hora o Tiago se sentiu feliz, não tinha que carregar os agasalhos. Depois dos passaportes devidamente carimbados, seguimos em busca de banheiros, mercado a vista, nos cederam o uso dos wcs e, era chegada a hora de pensar em energéticos, “asas para voar” se transformaram em “pernas para pedalar”. Quando saímos do mercado passou por nós, sentido PC3, o nosso colega Ademar, não tínhamos certeza se ele conseguiria!
Não observei em que momento, mas juntou-se a nós outro ciclista, o Eliezer, e rumávamos para o PC4, Km 280. O grupo já não conversava muito, não podíamos desperdiçar energia, nesse trajeto eu me esforçava muito, mas estava sempre a trás dos demais, o Ademir me fazia companhia, e eu só ganhava velocidade nas descidas, rsrsrs. Cheguei a dizer para que seguissem, afinal, eu brevetei ano passado, e não conseguir chegar não seria uma derrota, a meu ver, derrotado é pessoa que quer algo mas não tem coragem de enfrentar e não aquele que tenta, por um motivo ou outro não consegue.
Seguimos e, por mais que estivéssemos muito cansados, o ritmo estava na média dos 19km/h aos 20km/h, depois de pedalar duzentos e tantos kms, não era ruim. Eu tentava girar sem muito esforço, o nosso tempo estava dentro do esperado.
PC4, Praia dos Ingleses, ufa!!! Último PC, não podíamos perder tempo. Interagimos com alguns grupos que estavam ali, um grupo do desafio que estava acontecendo no domingo, o grupo com as mulheres…, nos lembramos do Ademar, teria desistido? Chegaria no tempo estipulado?
Mais energético, carimbar passaporte e socar a bota. O Eliezer que era de Joinville e conhecia bem o caminho puxou o pedal, como já sabíamos, não eram 300km, sim 316km. Segundo a monitora do PC4, ainda faltavam 30km, no relógio marcava 15:00h, tínhamos 03:00h para concluir, um tempo regular, claro se corresse tudo bem, sem pneus furados ou qualquer imprevisto que pudesse acontecer. Subidas fortes nos últimos km, mas a sensação de estarmos chegando amenizava o cansaço, estava para acabar àquele que foi o desafio dos desafios, para muitos inalcançável. E onde estaria o nosso colega, o Ademar?
Ciclovia a vista, passarela para atravessar, mais alguns metros,…,….,… CHEGAMOS!!! Chegamos como saímos, juntos! A Silvia nos aguardava na chegada, fotos, felicitações, melancias, bananas, medalhas e certificados…, estávamos na posição de vencedores! Passaporte carimbado, prontinho para seguir rumo a ACP – Audax Club Parisien!

O Eliezer disse que nós o adotamos no caminho, mas conforme citei no inicio, a sensação de estar em grupo é mais agradável, existe uma troca de energia, inexplicável. Neste desafio reencontramos alguns amigos, o Álvaro (conhecido por nós como o “banana de pijama”), o Rogério Rolo, não sabíamos que ele ia participar e quase não o vimos durante o percurso, mas estava lá. Conhecemos o Ademar, o Eliezer e outros com os quais interagimos, mas não houve tempo para apresentações formais, estamos ficando conhecidos pela equipe do Audax Floripa. E os princípios do Audax vão transformando nosso perfil de ciclista! Pedalar com objetivo de superar a si mesmo é diferente de competir!
(…)
Estava esquecendo…, no dia seguinte ficamos sabendo que o Ademar conseguiu, chegou no tempo limite, com 19:59h, foi “O guerreiro”, lutou até o último minuto e não pensou em desistir!

By
Rosângela Luciani

 

 

 

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Um Comentário

  1. Rosangela Luciani…..Pura emoção foi o que senti ao ler seu relato do Audax 300. Se eu consegui… foi com o apoio de vc e de seu pessoal e mais alguns grupos e pessoas que encontrei pelo caminho. Parabéns a voces e a todos esses bravos querreiros cansados, mas como eu, obstinados. Espero nos encontrar mos por aí….quem sabe no 400..rsss..Obrigado. Abçs.

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