CAMINHO DA FÉ – Nós fizemos!

Caminho da Fé, o relato.

Inspirado no Caminho de Santiago de Compostela, tendo à favor a forte religiosidade e hospitalidade do povo dessa região, interior de São Paulo e sul de Minas Gerais, foi traçado o Caminho da Fé. Trajeto bem sinalizado e, para nós ciclistas, bem servidos com pousadas e pontos diversos para abastecer líquidos e alimentos. Depois de ver alguns vídeos de um casal de fotógrafos, famosos aqui na região de Curitiba, a Simone Seguro e o Lupa, senti um forte desejo de fazer o Caminho da Fé, porém, o Ademir não concordaria, somente nós dois poderia ser perigoso. Foi ai que apareceu o Rogério, um amigo de alguns passeios que estava disposto a enfrentar o desafio. Ambos, o Ademir e eu em férias, o Rogério com disponibilidade para uma semana, concordamos com a programação para 8 dias. Passagens compradas, na bagagem o guia do Antônio Olinto e da Rafaela Asprino, partimos de Curitiba no dia 14 de novembro de 2015, desembarcamos em Ribeirão Preto, próximo ao meio dia, trocamos de roupa nos banheiros do aeroporto e montamos nossas bicicletas na praça em frente ao mesmo.
De acordo com a programação deveríamos ter seguido até Sertãozinho de taxi, ou, um provável amigo do Rogério faria esse translado, foi lá o ponto que escolhemos para iniciar “O Caminho da Fé”. Mas, eis que surgiu a ideia de irmos pedalando até Sertãozinho, mais tarde essa decisão impactaria em nossa programação.
1° dia – No meu velocímetro marcava 40° graus, 14:00h. Seguimos pedalando e, em busca de um local para almoçar. Almoçamos e seguimos pela Rod. Attílio Balbo, a diferença de temperatura, somada ao desconforto da viagem, a comida boa, mas inapropriada, corroboraram para que eu, principalmente, sentisse os efeitos negativos, não conseguia pedalar, as pernas amoleceram e não conseguia ficar em cima da bicicleta, no termômetro já marcava 42 graus, cada sombra que eu avistava sentia vontade me sentar e ficar por ali mesmo, o Ademir e o Rogerio trocaram olhares descontentes e começaram a dividir parte da minha bagagem, mas não era o peso da bagagem que definhava as minhas forças, sim a diferença climática. Alguns quilômetros depois o próprio Rogerio revelou que também estava sentindo os efeitos do clima, para nós curitibanos, muito quente. Com bastante sacrifício, pois cheguei a me imaginar dentro de um ônibus voltando pra casa com minha bicicleta e bagagem estritamente necessária, chegamos à Sertãozinho. Circulamos um pouco pela cidade para encontrar o local onde adquirir o passaporte e preencher um fichário antes de iniciar “O Caminho”. Abastecemos as caramanholas, e, em um posto de gasolina encontrei uma torneira que parecia uma ducha, mergulhei de cabeça, era tudo de bom, refresquei até o cérebro…rsrsr, encontramos as flechas amarelas, e bastava seguí-las. Detalhe, não nos atentamos ao horário, a ansiedade…, talvez … , tenha causado um ruído em nossa comunicação. O caminho em meio ao canavial abrandava o calor, terra vermelha vibrante transmitia uma energia que qualquer “pé vermeio”, autêntico, se sentiria realizado em admirar. Atravessamos trilhas iradas, terra solta e pedregulhos, mas logo chegamos à Dumont, 53 km percorridos. Fotos e lanche na praça central, onde o cenário remete ao “pai da aviação”, terra de Santos Dumont. O sol ainda se fazia presente, e sem preocupação, seguimos. Logo nos vimos novamente em meio ao canavial, muitas subidas, o ritmo era completamente diferente ao que estávamos acostumados, o Ademir sempre se mantendo à frente, a minha bicicleta parecia a cada km mais pesada, de repente uma descida, o Rogerio passou à frente, a perder de vista, meu rendimento caia e junto com ele o sol se punha. A escuridão tomou o canavial, percebi então que o pneu traseiro estava murcho, furado, causa do peso que eu sentia aumentando, detalhe, lá traz quando quiseram aliviar o peso da minha bike, pegaram as câmaras, para meu desespero estavam com o Rogério. O Ademir que me acompanhava ficou sem ação, não sabia se seguia atrás do Rogerio para pegar a câmara me deixando sozinha em meio ao canavial, na escuridão, ou se me acompanhava empurrando a bike, até alcançar o Rogerio. Para minha sorte eu estava levando minha mega lanterna. Sugeri ao Ademir que fosse atrás do Rogerio, ao meu ver a solução seria mais rápida. Fiquei por alguns minutos, eternos, sozinha, olhava para um lado, cana, pra trás, cana, pra o outro lado, cana, para frente cana, a escuridão transformou aquele cenário que era lindo ao entardecer em um cenário de terror, comecei a cantar, rezar, rezar e cantar, pânico total. Mas segui em frente, depois de uns 500 metros ouvi barulho de carro e logo as luzes fortes refletiam em minha direção, não sabia se sentia alegria ou medo, o que estaria por vir? Havia um forte declive à frente, direção de onde vinham os veículos, refleti e diante do desconhecido o melhor a fazer era subir na bicicleta e deixar a gravidade fazer o trabalho, os veículos passaram por mim, ouvi um homem dizer, mais um ciclista … . Logo avistei um bar, com vários veículos, geeps para trilhas, algumas pessoas, o Ademir e o Rogerio “tranquilos” me aguardavam, era o bar do “Zé Goleiro”, descrito no guia, senti certo alivio, um alívio muiiiito grande…rsrsr. Ali conhecemos algumas pessoas, a história do local, lanchamos pão com ovos, consertamos os pneus, mais uma câmara estourada, água nas caramanholas e, aproximadamente 21:30h retornamos ao “Caminho”.
A escuridão era total, não fosse a minha lanterna, mega forte, e a lanterna do Ademir não teríamos condições de seguir, o Rogerio estava sem lanterna, seguiu ao nosso lado. Continuávamos em meio ao canavial, subindo, subindo…, de repente, senti que algo bateu violentamente no lado da minha face, parte da boca e nariz, gritei: – aiiiiii!!, rsrsrs. Não consegui identificar o que era, mas imaginei um morcego ou um pássaro feroz, mas é bem provável que tenha sido uma coruja, senti um certo ardor no local, lavei com água e com muiiita calma prosseguimos. A realidade do que poderia acontecer naquele lugar, naquela hora foi aos poucos tomando nossas consciências, atingir a meta planejada não era o principal, e sim estarmos em segurança. Neste primeiro dia pedalamos até às 24:00h, tivemos dificuldade em encontrar a pousada na cidade de Cravinhos, não que fosse difícil, mas o cansaço atrapalhou muito nosso raciocínio. Pousada Girassol, muito simples, mas nas condições que estávamos dormimos muito bem. A meta inicialmente planejada era pedalarmos de Sertãozinho à Cravinhos, 56km, atingimos a meta e aumentamos mais ou menos 30% do trecho. Os 34km de Ribeirão Preto a Sertãozinho foram bônus, não fazem parte do “Caminho”, mas de certa forma comprometeu nossas energias. Primeiro dia 90,5km, ganho de elevação 1.218m.
2° dia – Com experiência em algumas provas de longa distancia aprendi que quando o percurso é longo devemos dividi-lo, e cumpri-lo por partes, igual ao Jack, e caberia a mim impor essa prática aos parceiros de pedal. Em consequência do desgaste do dia anterior acordamos um pouco mais tarde, 07:00h, havia chovido durante a noite toda, temporal feio, o dia estava nublado com chuviscos, clima favorável para nós da região de Curitiba. Descansados, alimentados, carimbados os passaportes, encaramos os chuviscos com capas de chuva, rumo à São Simão, mas logo tivemos que tirar as capas, o tempo clareou e não choveu mais. Porém, ao retornarmos para o cenário principal, canavial, terra vermelha e cascalhos, o barro castigou, tanto no esforço e técnica para nos manter pedalando, como interferindo no sistema de transmissão das bicicletas. Logo mais um pneu da minha bicicleta furado, a causa, quando pedalamos na rodovia com temperatura alta, amoleceu a borracha e àqueles araminhos de pneu de caminhão perfuraram o pneu da bicicleta, conforme ia rodando se movimentavam e furava a câmara, essa foi minha teoria. Trocar o pneu da bicicleta carregada com alforje, suja de lama, é muito complicado, o Ademir merece elogios, embora eu percebesse que em alguns momentos a paciência dele estava se evaporando com o calor, rsrsrs. Por muitos quilômetros só canavial, era a única cultura que se via na região, não víamos plantação de café, nem de milho, nem feijão, nem trigo, somente cana, cômico, só víamos alimento para os veículos.
Eis que no meio do canavial havia um pé de manga rosa, com a forte chuva da noite anterior muitas mangas caíram, sem qualquer luxo, o Ademir e eu nos fartamos, já o Rogerio disse não gostar de manga e decidiu chupar cana. Estávamos gastando muita energia, qualquer fonte de vitaminas, glicose e líquidos era bem vindo. Passados os minutos de relaxamento voltamos ao pedal, não fosse o tipo de solo, e por estar molhado, o pedal teria sido tranquilo, sem muitas subidas. Por volta do meio dia chegamos a São Simão, encontramos um restaurante muito bom, parecia meio requintado para entrarmos sujos de barro, suados, não perfumados, sem make básico e sem chapinha, mas o povo de lá é muito hospitaleiro, o garçom nos levou até um local seguro para deixar as bicicletas, onde havia uma mangueira, tudo que precisávamos para não assustar os outros clientes, tiramos o excesso de lama do corpo e pudemos entrar no restaurante, quase despercebidos… como se fosse possível, rsrsrs. Almoçados, fomos em busca do hotel credenciado para carimbar os passaportes, puts, mais um pneu da minha bicicleta furado, a paciência do Ademir já estava se esgotando, era o terceiro pneu furado da minha bicicleta, parecia que algo conspirava para que eu não concluísse o “Caminho”. Estresse contornado com muita psicologia. O rapaz que nos atendeu no hotel também foi muito amável, nos forneceu água com gelo. Em retribuição, eu estava levando algumas mangas para uma possível emergência, decidi dar a ele, que ficou muito feliz para minha surpresa, esse rapaz disse que iria trabalhar até tarde e não tinha nada para comer, me senti muito satisfeita, além da boa sensação de doar, eram quase meio kilo menos no meu alforje, rsrsr.
Próximo destino Santa Rosa do Viterbo. Subidas pedaláveis, o solo estava ainda úmido, mas muito arenoso o que minava nossas forças, a temperatura variava de 33° à 38° graus, conforme a altitude. Em alguns momentos sentia necessidade de resfriar o corpo, jogando água na cabeça e na nuca, além de parar um pouco. O cenário continuava o mesmo, cana por todo lado e, próximo a sede de uma fazenda, conseguimos ver tucanos nos galhos de uma grande árvore, um dos belos privilégios que tivemos pelo “Caminho”, lindos. O sol já mostrava que o dia estava se indo. Depois de 27km chegamos a Santa Rosa do Viterbo, a meta do dia era chegar a Tambaú. Durante o entardecer o cenário foi se modificando, notamos plantação de eucaliptos em alguns trechos, na estrada havia formações de erosão, pedras grandes e descidas fortes, como tudo que desce, depois sobe, no mesmo perfil eram as subidas, forte com pedras soltas e valetas de erosão, mas ainda era possível pedalar. Com entardecer, e com a experiência desagradável do dia anterior, atingir a meta nesse dia estava se tornando impossível, me manifestei, disse que não queria pedalar durante a noite. Logo, o único e próximo local que tínhamos era a pousada Fazenda São José. Depois de uma longa e forte subida, descemos por uma estradinha da fazenda, trecho no qual me vi várias vezes indo de ponta cabeça em direção as pedras, a “fé” começou a se manifestar em mim, em outras situações eu teria descido da bicicleta e empurrado sem qualquer problema, mas eu precisava chegar, não podia atrasar, o terreno ali era menos favorável que o do dia anterior quando pedalamos até tarde. Em fim chegamos à Fazenda São José, lugar lindo, lembra àquelas fazendas antigas dos grandes plantadores de café, a casa grande, a piscina, as várias casas dos serviçais. Porém, não havia ninguém na casa grande, o desespero tomou conta de mim, mais uma vez, 17:30h, para chegar à Tambaú seriam mais 23km, em terras desconhecidas, impossível. Falei pro Ademir que posaria ali de qualquer forma, nem que fosse no banco em frente a entrada da sede da fazenda. Enquanto eu e o Ademir fazíamos amizade com os vários cães que cercavam a casa grande, o Rogerio iniciou uma busca pelas redondezas e por sorte encontrou, em uma das várias casas, a faxineira, não era a responsável pela casa, mas fez o papel muito bem. Elaine, jovem senhora com algumas crianças, uma em especial, que logo chamou nossa atenção, apelidada de “grilo falante”, a garotinha de uns 5 anos não parava de falar. Com um tempinho sobrando, pudemos relaxar na piscina, andar pelo jardim e admirar o anoitecer, enquanto isso a Elaine preparou os quartos e o nosso jantar. Após preparar o jantar a Elaine foi para casa dela com os filhos e nós ficamos sozinhos na casa. O lugar é magnífico, com algumas características pitorescas, como a escultura de uma cabeça, me pareceu referencia a “Hades”, um deus da mitologia grega, fixo na escada que dava acesso a piscina, várias arcos nos acessos ao jardim, e algumas imagens de bruxas em cima das portas no corredor dos quartos onde eu dormi, dormi muito bem, até porque só percebi esses detalhes pela manhã, foi melhor assim. Segundo dia 85,8km, ganho de elevação 922m.
3° dia – Cumprimos a rotina, desjejum, passaportes carimbados, mais fotos, despedida e por volta das 07:30h retornamos ao “Caminho”, o mato estava alto e molhado, não conseguíamos ver onde pisávamos, não havia condições de pedalar por uns 800m, logo o caminho se abriu, o terreno era arenoso e molhado, o Rogerio disse que nessas condições era melhor do que seco. Foi nesse trecho que notamos grandes pegadas no solo, a princípio pareciam ser de cachorro grande, mas ao vermos um cachorro grande notamos que àquelas não eram pegadas de cão, eram de onça, o alívio por não termos nos aventurado durante a noite foi recompensador e o instinto de sobrevivência fez com que o pedal rendesse mais, rsrsrs. Sobe e desce sem grandes aclives ou declives, com muita areia e trechos alagados chegamos à Tambaú ainda pela manhã, cidade pequena, bem, estruturada. Já era necessário comer, abastecer as caramanholas, os energéticos gelados já começavam a fazer parte dos lanches, um up na energia. Fomos em busca do local para carimbar o passaporte, encontramos em um espaço da Prefeitura, com sala e pessoa específica para receber os peregrinos, muito organizado. Lá reconheci pendurado na parede um quadro igual ao que havia na casa da minha avó, Leontina, o quadro do famoso Padre Donizetti, bem antes dessa febre de padres estrelas. A atendente nos fez um breve relato, foi ali que o “Padre Donizetti viveu seus últimos anos, é na cidade de Tambaú que estão seus restos mortais. O Padre Donizetti é considerado responsável por milagres, um Santo Padre, beatificado.
De volta ao caminho passamos em frente à igreja onde estão os restos mortais do Padre Donizetti. Rumávamos agora para Itobi, com passagem obrigatória em Casa Branca. O percurso foi de certa maneira tranquilo, claro que os longos períodos em cima da bicicleta já nos castigavam, as assaduras começavam a incomodar, o Ademir jurava não sentir desconforto algum, o creme anti-atrito foi essencial, e eu usei muito.
Sempre que estávamos chegando à alguma cidade a ansiedade tomava conta, e, quase sempre passávamos despercebidos pelo local onde deveríamos carimbar o passaporte. Em Casa Branca, fomos direto a praça central, sombra e água fresca, melhor dizer, almoço, muito suco e descanso na praça central em frente à igreja. E, foi lá que conheci uma figura nativa da cidade, o Sr. Walter Gomes, 90 anos, sentei-me ao lado dele e fui respondendo algumas perguntas como: De onde vocês são? Vocês estão de moto? Em quantos vocês estão? De onde vocês são? Vocês estão de bicicleta? De onde vocês são? Em quantos vocês estão? …Não, eu não repeti equivocadamente as perguntas…rsrsr, provavelmente o Sr. Walter sofre do mal de Alzeimer, mas com muita paciência conseguimos aprumar a prosa, e ele me contou que nasceu na cidade, filho de espanhóis, estudou e exerceu profissão de bancário, atuou no serviço público, aposentou-se retornando a cidade natal. Nossa conversa o remeteu ao passado, contou-me que quando ele era jovem, a praça era cenário de cortejos românticos, as moças se mantinham em um lado da praça enquanto os moços ficavam cortejando à distância do outro lado, viajou no passado. Enquanto eu descansava e conversava com o Sr. Walter, o Ademir limpava e lubrificava as bicicletas e o Rogerio tirava uma soneca no banco da praça. Logo voltamos à realidade, providenciar o carimbo e retornar ao “Caminho”. Detalhe, o único local credenciado a carimbar o passaporte era na entrada da cidade, tínhamos passado despercebidos por lá quando chegamos, o sol estava rachando nossos capacetes, eu me escondia até nas sombras dos postes, voltar … putz, cogitamos até em pegar um taxi para ir até o “Desterro”, 1km de descida, teria que subir novamente pra prosseguir, ai surgiu um certo estresse …E o Ademir se prontificou em levar os três passaportes para carimbar. Enquanto isso fiquei sentada no meio fio, à sombra de um poste, meditando. Carimbados os passaportes, seguimos o “Caminho”, rumo à Itobi, o sol continuava muito quente, seguíamos as flechas amarelas. O pedal rendeu, o ganho de elevação já não era o desafio a ser cumprido. Onze quilômetros depois estávamos em Itobi, tomamos mais sucos e energéticos, carimbamos os passaportes e seguimos rumo a Vargem Grande do Sul, subíamos, descíamos, retão, nenhum, rsrsrsr. A temperatura já estava baixando, mas o peso nos alforjes parecia aumentar a cada dia, chegamos a Vargem Grande do Sul. A ideia era prosseguir até a Pousada da famosa Dona Cidinha, mas neste dia o Rogerio estava muito cansado, reclamava das assaduras, e a pedido, pernoitamos em Vargem Grande do Sul.
Terceiro dia 90,2km, ganho de elevação 935m.
4° dia – Levantamos cedo cumprimos a rotina e logo rumamos a São Roque da Fartura, como sempre para sair da cidade, subimos muito, aclives impedaláveis, pura escalada, escalar paredão já não é fácil, escalar empurrando a bicicleta carregada com alforje, inexplicável. E, bem no meio da subida surge da pousada da Dona Cidinha, passamos por lá, mas ela não estava em casa, queria tanto tê-la conhecido, fomos recebidos pelo filho dela, cafezinho bom, água fresca, descanso. Retornamos ao caminho, retornamos aos paredões. O Ademir até tentava pedalar mas era impossível. Quando chegamos ao lugar que parecia o topo, o mais perto do céu, mas que nada, um pequeno declive e logo voltamos a subir, o tipo de solo já estava mais favorável ao pedal, em compensação não parávamos de subir. Uma das minhas motivações nas subidas é chegar ao topo e curtir a descida, só que não, essa subida não terminava mais, 13km praticamente subindo, chegamos à São Roque da Fartura, um lanche, muito liquido, sucos, só pedíamos de jarra. Passaporte carimbado, seguimos rumo à Águas da Prata. Ao sairmos da cidade e voltarmos ao “Caminho”, a estrada foi aos poucos desaparecendo e tomando forma de trilhas, forma de caminho de bois, o mato alto já não permitia ver o caminho, seguíamos tendo como direção as flechas amarelas que demarcam o “Caminho”, nesse caso estavam nas árvores e nas porteiras, e essas porteiras se encontravam trancadas, havia passagens possíveis para peregrinos à pé, mas para passar as bicicletas tivemos dificuldades, atravessamos pastagens ao lado de bois, com aparência nada amigáveis, tivemos sorte de passarmos quase despercebidos, os chifres eram afiados. No caminho havia uma imensa árvore, acredito que era uma figueira, entrei com a bicicleta dentro da raiz, parecia até uma caverna, incrível. Passamos por uma estrada, ou projeto de estrada, porque não creio que algum tipo de veiculo consiga trafegar por lá, além da imaginação, rochas, valas e mato, nunca em campeonatos, audax ou passeios vi um trajeto tão difícil, o Ademir e o Rogerio se arriscaram, e creio, pairaram sobre o solo, eu tentei, até que uma pedra rolou, e adivinha, consegui saltar para não cair com a bike, foi um dos trechos mais tensos. A partir dai as descidas começaram a ser muito fortes. Sou do tipo de ciclista meia boca, sou fraca nas subidas e tenho medo de descidas fortes, rsrsrs…. Chegando à Águas da Prata, almoçamos e já se cumpria uma quase rotina, o Ademir cuidava das bikes e o Rogerio descansava no banco, eu até tentei tirar uma soneca no coreto da praça, mas não me senti à vontade. Procuramos o local para carimbar os passaportes, fomos até a fonte pegar água fresca, e, de volta ao “Caminho”. Rumo ao sul de Minas Gerais, Andradas. Os primeiros 9km foram leves, na sequencia voltamos às escaladas, sobe…, sobe…, sobe…. Algumas vezes tive que parar para refrescar o corpo, jogando água na cabeça e na nuca, tínhamos que chegar à Andradas, lá do alto víamos a chuva que nos cercava, pedalamos por horas e finalmente os declives começavam a aparecer, 8km descendo, curvas fechadas, declives muito acentuados, eu segurava firme nos freios, a impressão que eu tinha era que se soltasse o freio eu ia levantar voo. No final do dia ela nos alcançou, a chuva forte com raios e trovoadas, para as bicicletas nada bom, com lama, areia e agora pedalar na chuva, sem opção, nos restava seguir. Chegamos na cidade encharcados, sujos e loucos por um banho quente, nos hospedamos em um hotel, e depois do banho saímos pra comer e circular pela cidade. Quarto dia 84,1km, ganho de elevação 2.429m.
5° dia – No outro dia, bem cedo carimbamos o passaporte no próprio hotel e partimos em baixo de chuva, não havia alternativa, rumo à cidade chamada “Barra”. Chegamos em Andradas com declive acentuado, saímos com aclives e declives médios, a partir do km 4 inicia a subida, mas no décimo quilômetro o bicho fica feio, contando parece exagero, mas na “Serra dos Lima” subimos por 12km, por sorte é um trecho pavimentado, do contrário nem carro subiria, tal é o grau de inclinação, subimos empurrando praticamente todo o trajeto, parávamos para tomar água, descansar, para rir e chorar, rsrsrs…Mas quando começou a descer foi só alegria, que nada!!! Saímos do pavimento e caímos em estrada de terra vermelha, barro grudento. Chegamos à cidade da “Barra”, na verdade um lugarejo, muito pequeno, no fundo de um vale. Destino agora era Crisólia, quando imaginamos já ter superado as piores elevações, os piores tipos de solo vem algo ainda pior. Com as chuvas aquela bela terra vermelha se transformou em uma lama grudenta, os pneus não giravam de tanta lama, tínhamos que carregar as bikes, a dificuldade era tanta que encontrei uma técnica para subir, onde a enxurrada passava se formavam pequenos degraus, para não escorregar eu tentava encaixar os pés nesses degraus. Com a velocidade muito reduzida conseguimos observar detalhes na paisagem, foi assim que vi um par de tênis abandonado no barranco, acredito que algum peregrino o tivesse abandonado, por não conseguir carregar toda a bagagem alguns vão praticando o desapego pelo caminho. Conseguimos superar esse trecho, foi bem difícil, mas depois tivemos pela frente um trecho mais tranquilo até a chegar à cidade de Crisólia.
Após Águas da Prata percebemos marcas de pneus de bicicleta, talvez três, segundo conhecimentos indígenas rsrsr, deveriam estar a um dia na nossa frente. Mas foi entre a cidade da Barra e Crisólia que encontramos os únicos peregrinos no “Caminho”, conversamos um pouco, estavam em três, com carro de apoio, fizemos o social, registramos imagens e seguimos. Já em Crisólia na praça central, próximo ao horário de almoço, tentávamos consertar minha bicicleta, o peso do alforje estava pressionando o cabo, dificultando a troca de marchas, um comerciante nos emprestou uma chave apropriada e o problema foi resolvido, então fomos almoçar, o lugar mais próximo e indicado era o bar da Zetti, comida típica mineira, apetitosa. A proprietária, Dona Zetti também é muito amável, nos sentimos em casa por alguns minutos, para nossa surpresa os peregrinos nos alcançaram. Rumamos para as bandas de Ouro Fino, e agora podemos dizer que pedalamos lá pelas estradas de “Ouro Fino”, levantamos poeira pelos estradões. Senti um certo saudosismo, dos tempos em que era criança e ouvia a música do Sergio Reis, a inspiração era tanta que deixei o Ademir e o Rogério pra trás, segui cantando e tocando a boiada, só que não… rsrsrs, logo me vi diante da grande porteira e dele, “o menino da porteira”, imponente como nos versos da música. Parada obrigatória para registrar algumas imagens. Carimbamos os passaportes e seguimos rumo à Inconfidentes, cidades bem próximas uma das outras. Estava me esquecendo de relatar, em Ouro Fino colocamos em prática uma das melhores ideias que o Rogerio teve durante todo o “Caminho”, praticamos o desapego, retiramos dos alforjes tudo que ainda não tínhamos usado, e, provavelmente não usaríamos mais, e despachamos para casa, só do meu alforje retirei 4kg, que diferença isto fez. Com essa ação melhorou nossa performance, rsrsr… Em Inconfidentes, apesar da curta estadia, pude notar que é uma cidade universitária é também a cidade do crochê, lindas árvores com seus troncos revestidos com coloridos e alegres trabalhos das mãos habilidosas das crocheteiras. Mas neste dia a meta era chegar a Borda da Mata, então não podíamos perder tempo. Durante este trecho nos vimos de baixo de um sol escaldante, num retão com terreno arenoso, de longe avistei uma árvore glamorosa, já havia visto imagens dela e já havia lido seu nome em versos, um Jatobá, parei com a desculpa de fazer alguma necessidade e encontrei um fruto, que hoje está enfeitando minha fruteira, hehehe!. Mais adiante avistamos um sombreiro, irresistível, em frente a uma humilde residência, paramos e logo apareceu uma jovem senhora e uma garotinha, pedimos água, gentilmente nos trouxeram a água, mangas e laranjas. A prosa tomou rumo como os bons mineiros sabem conduzir, em seguida a jovem sra. chamou sua mãezinha que estava na casa fazendo doce de leite, deviam ser umas 16:00h, com jeitinho meio tímido, magrinha e com aparência frágil, a senhorinha foi se aproximando, sentou-se e aos poucos foi se envolvendo na prosa, Nos contaram que estavam com viagem marcada para Aparecida do Norte, iriam pagar uma promessa, a senhorinha estava curada de um câncer, combinamos que nos encontraríamos nas escadarias da igreja no sábado às 14:00h. Depois desse breve momento, agradecemos, nos despedimos e retornamos ao “Caminho”. As subidas voltaram a nos fazer companhia, mas já não nos castigava tanto, por quase dez quilômetros subimos. Finalmente a parte boa, 6km de descida, obviamente como sempre, curvas sinuosas, descida forte com trechos de erosão e pedregulhos, em menos tempo do que esperávamos cumprimos a meta do dia, eis que chegamos a Borda da Mata. Em hotel simples e acolhedor, nos instalamos relativamente cedo. Depois de algumas horas saímos para comer e conhecer um pouco da cidade, não encontramos restaurante, mas o restaurante nos encontrou, isso mesmo. Nos deparamos com um motoqueiro que fazia entrega de pizza e ele nos perguntou se estávamos procurando lugar para comer, a resposta foi afirmativa. Ele nos disse para esperar que viria nos buscar, respondemos que não era necessário, bastava nos indicar a direção, iríamos a pé, em menos de cinco minutos ele retornou com uma linda Hilux, nosso desconfiômetro deu sinal de alerta. Mas na dúvida pagamos pra ver, realmente o restaurante era longe para ir a pé. Chegando lá, a mesma pessoa nos colocou em uma boa mesa, fez nosso pedido, enquanto o pedido era preparado, nos serviu as bebidas, atendia o telefone e anotava pedidos, fazia entregas e dava atenção à esposa e filho que estavam no local. Ele mesmo nos serviu, e , claro nos levou de volta ao hotel, nunca vi tratamento igual. Quando dizem que os mineiros são ótimos anfitriãos, não há exageros, é isso mesmo.
Quinto dia 78,8km, ganho de elevação 1.834m.
6° dia – As cidades são encravadas nos vales, talvez pelo acesso à recursos como a água. Soa repetitivo, mas a geografia da região é bastante acidentada e nossos dias já se tornavam uma espécie de ritual, sabíamos que para sair da cidade íamos subir muito, já que havíamos descido ao chegar. No sexto dia, com menor peso nos alforjes, as subidas já não nos assustava tanto. Saímos de Borda da Mata de baixo de chuva, resistir a ficar na cama um pouco mais foi difícil, levando em conta que acumulava o cansaço, as noites pareciam pequenas. Mas aprendi com meus pais, desde criança, quando me comprometo a fazer alguma coisa, eu faço. Acho horrível quando as pessoas fazem planos, se comprometem e não cumprem. Por isso levantar cedo era um compromisso assumido para os oito dias, com dores, sem dores, com assaduras … etc, eu cumpriria a minha parte. Ao sair da cidade por incrível que pareça foi tranquilo, no km 6 que as subidas fortes começaram, o Rogerio olhava para cima e dizia: – Rô olha aquelas folhas daquelas árvores lá no topo da montanha, depois delas tem mais montanhas, mais subidas, temos que alcança-las, talvez para me impressionar, mas não me deixei abater, e no final do “Caminho” era eu quem mostrava as folhas no topo das montanhas para ele … rsrs. Comecei o caminho moderando meus esforços para não haver desgaste excessivo e chegar bem ao final. E no sexto dia estava surpresa com o meu desempenho, detalhe cuidei muito da alimentação e hidratação, enquanto o Ademir e o Rogerio tomavam uma geladinha nos finais de tarde, eu tomava jarras e mais jarras de suco, principalmente de laranja. Notei, principalmente, a partir do 6° dia que o Rogério estava muito desgastado, e reclamava algumas vezes, principalmente das assaduras.
Chegamos relativamente rápido a Tocos do Mogi, a geografia é dura, mas a paisagem encanta, não cansávamos de tirar fotos dos vales, observamos o gado criado nas montanhas, e concluímos que a carne produzida na região deve ser dura com muito músculo rsrsr. Na cidade providenciamos o carimbo dos passaportes em baixo de chuva, e seguimos rumo a Estiva. Em meio as dificuldades do “Caminho”, conhecendo o Ademir como conheço, comentei com o Rogerio que se ele não estivesse nos acompanhando muito provavelmente o Ademir não concluiria o “Caminho”, não por lhe faltar força ou resistência, mas pelas dificuldades que passamos, em muitos trechos chegamos ao nosso limite, para minha surpresa o Rogerio respondeu que se não estivéssemos juntos ele teria desistido. Imagino que quando parávamos e ficávamos rindo sem um motivo real, se estivéssemos sozinhos, qualquer um dos três, fazendo o caminho sozinho, ao invés de risadas, choraríamos. Mas era o sexto dia, já havíamos passado por mais da metade do “Caminho”, precisávamos manter o foco. Subidas íngremes, muita pedra solta com descidas fortes foi assim que chegamos a Estiva. Carimbados os passaportes, nesse dia não me recordo, mas creio que passamos com lanches, sem almoçar como nos outros dias. A paisagem muda um pouco nessa região, ainda víamos plantação de cana, mas também plantação de morangos e mandioca, com folhas um pouco diferentes das que conheço. Passamos por Consolação, praticamente sem paradas, em alguns trechos havia gado no meio do “Caminho”. Subindo, sempre mais que descendo, entre Consolação e Paraisopolis o Rogerio ficou um pouco atrás, o Ademir o esperou e eu segui, devo ter pedalado uns 15km sozinha. Na entrada da cidade de Paraisópolis encontrei um ciclista, o Jean, com uma moutain bike, estava indo treinar nas montanhas ali próximas, ele é atleta de competição, e concordamos estava bem servido de lugar para treinar, só montanha. Ficamos conversando enquanto o Ademir e o Rogério não chegavam, nos indicou um bom hotel na cidade com recurso para lavar as bikes. Novamente juntos chegamos a cidade de Paraisópolis curtindo uma bela descida, nossa passagem por Minas Gerais estava praticamente encerrada. Lavamos as bikes ao chegar no hotel, banhos, com a prática do desapego, eu fiquei somente com a muda de roupa do corpo para pedalar, ao chegar nos hotéis, tinha que lavar a roupa e por pra secar para no outro dia poder usar, até ai estava sossegada, usava ventilador, varal os recursos que havia disponível para secar as roupas. Embora, às vezes saissemos pela manhã em baixo de chuva. Nessa noite comemos muito bem fomos à um restaurante que se chamava “tal e coisa”, mas o nome e a aparência não nos agradou então atravessamos a rua e acabamos comendo em outro restaurante que e chamava “Coisa e tal”, aconchegante, com várias opções, enquanto os meninos optaram por um prato com muita carne, eu optei por uma massa à carbonara, maravilhosa, inesquecível, recomendo o lugar e o prato.
Sexto dia 93,1km, ganho de elevação 3.174m.
7° dia – De acordo com o guia, estávamos no dia que seria o mais difícil, que mais exigiria de nós, teríamos que vencer o maior ganho de elevação de todo o “Caminho”, então a melhor maneira de fazer isso era encarar de frente, com bom humor, se fosse possível, claro! Me recordei do comentário da Simone Seguro quando comentei que íamos fazer o “Caminho”, a primeira lembrança que ela teve foi da cidade de Luminosa: – sobe muiiiiito, ela disse. Mas ouvindo alguém falar não dá pra ter noção, sobe muiiiito, muiiiito, inacreditável!
Partimos de Paraisópolis bem cedo, sob forte chuva, mas logo a chuva parou, a alta temperatura já não nos castigava tanto. Passamos por lugares lindos, do ponto de vista turístico. Chegamos a relaxar, até o km 12 foi bem tranquilo, porém os próximos 7km foram de chorar, tentávamos não pensar no que viria pela frente, não nos preocupar com o futuro, curtir o momento rsrsrs. Passamos por Cantagalo, lugarejo encantador, falamos com pessoas muito amistosas, nos contaram que o programa Globo Rural já fez matéria na região, mostrando as plantações de azeitona, lugar de pessoas muito religiosas, de certa forma nos viam também como crentes, afinal que tipo de pessoas faria um “sacrifício” deste, não fosse pela fé, acho que eles tinham razão em pelo menos cinquenta por cento. Em Cantagalo carimbamos os passaportes em dois locais, apesar das subidas fortes o local tinha um ar muito agradável, energia boa!. Subimos mais uns 4km e começamos a descer, caramba que descida, despenhadeiro de um lado, e do outro lado também rsrs. Lá do alto avistamos a tão falada cidade de Luminosa, pequena, mas marcante. Igrejinha, praça central e alguns pequenos comércios, chegamos, tomamos energéticos e comemos, íamos precisar de muita energia pra sair da cidade. Ao longe avistávamos um morro com formato distinto dos demais, sabíamos que iriamos passar por ele, então o foco foi o que nos motivou, porque ao sairmos da cidade começamos a subir, com chuva fraca, porém durante as primeiras horas da manhã havia chovido muito, o barro vermelho grudava nas rodas o que tornava impossível girar, pedalar nem pensar, o Ademir até tentou, mas viu que se persistisse iria provocar problemas na bicicleta, conseguíamos subir alguns metros e parávamos para descansar, inclinação muito forte, na verdade estávamos carregando as bicicletas. Para nosso alivio alcançamos a pensão da Dona Inês, lugar abençoado, certo e na hora certa. Tivemos que retirar o excesso de barro das bicicletas, enquanto isso a Dona Inês nos preparou um lanche delicioso, sucos e café, registramos algumas imagens e voltamos ao “Caminho”, do km 4 ao km 9, carregávamos as bicicletas, sentávamos nos barrancos, um olhava para o outro e ríamos, claro para não chorar, mesmo que pensássemos em desistir, já não havia opção. O único veículo que passou por nós foi uma Toyota, carregada com bananas, as rodas estavam com correntes, pra descer, imagina se algum carro subiria aquela montanha, nunca é a resposta. Depois de muito esforço, vencemos aquela que seria a pior subida de todo o “Caminho da Fé”, passamos pelo morro, aquele distinto, na verdade, uma imensa rocha cravada no alto da montanha, passamos pela região de antigos quilombos, ainda habitados. Alcançamos um trecho pavimentado e pasmem, descida, ufaa! Era tudo que minhas pernas precisavam, acho que o Ademir e o Rogerio pensaram o mesmo, até porque o Rogerio aproveitou a descida e sumiu na frente. E como tudo que é bom logo acaba, 5km de descida passa muito rápido, acabou em um local onde havia um bar, quase uma lanchonete, fizemos um lanche e ali, pensei ter ouvido alguém mencionar em seguirmos após Campos do Jordão, passou pela minha cabeça que estavam muito ansiosos por chegar, o Ademir havia mencionado em, se possível, chegar em Curitiba a tempo de participar de uma prova de mountainbike que iria acontecer no domingo. Peguei a minha bicicleta e sai na frente, depois de uns 300 metros encontrei uma senhora que me abordou perguntando se eu estava fazendo o “Caminho”, respondi que sim, ela então me chamou para carimbar o passaporte, era dona de uma pensão que recebe peregrinos. Enquanto eu estava dentro da pensão, vi o Ademir e o Rogério passarem em frente, e rápidos, eu havia deixado a minha bicicleta em frente da pensão, imaginei que iriam vê-la, mas só que não, não viram. A essa altura do “Caminho”, aconteceu o improvável. Peguei os passaportes e sai rapidamente para alcança-los, eles pensando que eu estava na frente, e tentavam me alcançar, e eu lá atrás, pedalando tudo que minhas pernas e pulmões permitiam para alcança-los, depois de uns 5km, ao longe avistei o Rogério, e logo consegui alcança-lo. Ele me disse que sugeriu ao Ademir que fosse o mais rápido possível para me alcançar, já que imaginavam que eu estava na frente. Tentei chamar o Ademir, gritei muitas vezes, a mata na região é fechada, e subida forte, fiz de tudo para alcançá-lo, deixei o Rogério pra trás, depois de muito esforço cheguei a conclusão que não alcançaria, em um trecho não consegui mais pedalar, empurrei a bicicleta, quando retomei no pedal, uma cobra que pareceu sair de baixo da bicicleta me surpreendeu, dessa vez o grito foi forte, aaaaiiiiiiii!!! Rsrsrs! O Rogério me alcançou e seguimos juntos até que furou o pneu da minha bicicleta, de novo. Perdi as esperanças de alcançar o Ademir, porém fiquei imaginando, a subida foi forte, como ele, o Ademir, estava pedalando forte, teria me alcançado se eu estivesse na frente, só que não, mesmo assim não parou. Logo que trocamos o pneu recebi a ligação do Helson, meu filho, avisando que o Ademir já estava na pousada nos aguardando, esse trecho foi sem dúvida estressante. Mas logo chegamos à pensão do Peregrino, eu decididamente não queria ficar em um lugar onde tivesse que dividir o quarto com estranhos, queria um banheiro só pra mim, mas dois contra uma, perdi. Pior, não sou de ter ptisss, ataques de frescuras, mas depois de sete dias passando pelas situações mais desafiadoras que eu poderia me imaginar, eu queria um quarto só meu! Ainda pior, lá não tinha secador de cabelo, não tinha ventilador e estava chovendo, eu precisava lavar minha roupa, secar, que jeito? não tinha ventilador nem secadora, nada. Pra piorar quando fui pegar minha roupa do pós do pedal, a mesma que usava todos os dias, por contenção de peso, estava molhada! Chorei feito criança, entrei em baixo dos cobertores, cobri a cabeça e me tornei a mais sofredora das criaturas, até tentaram me tirar de lá, mas eu precisava daquele momento frescurite. Minutos depois, precisava me alimentar e logo me recuperei, improvisamos uma roupa, fiquei parecendo um espantalho, mas era o que tinha disponível, comemos na pousada mesmo e logo fomos dormir. Dizem que Campos do Jordão é uma bela cidade, a chuva e o frio não nos deixou perceber essa beleza, os donos da Pousada do Peregrino também foram muito receptivos.
Setimo dia 74,1km, ganho de elevação 3.346m.
8° dia – Pela manhã partimos rumo a Aparecida do Norte, em baixo de chuva novamente, e frio. Descemos pela Rodovia, a serra estava tensa, antes do túnel um carro havia perdido o controle e estava atravessado na contra mão, batido na mureta lateral da pista. Eu não conseguia me manter com os óculos para proteger os olhos, tinha a sensação que estava transbordando água igual acontece com os desenhos animados, do tipo Tony e Jerry, ainda bem que pensamentos assim ocupavam minha mente, a pesar de todo percurso do “Caminho” ter sido difícil, a tensão de estar numa rodovia perigosa, descendo a serra com chuva torna o pedal tenso, fiquei amedrontada, ao final da serra a chuva parou e encontramos um grupo de bikers treinando, me animei e falei pros meninos que ia acompanhar o grupo, o Rogério não me levou a sério, mas assim eu fiz, e só parei onde há uma bifurcação que dá duas opções aos peregrinos, ir pelo “Caminho” original, o mais antigo, ou seguir pelo asfalto e passar pela cidade. Antes de sair já havia mencionado que eu não iria pelo asfalto, me parecia sem sentido facilitar o final, tudo bem que o cansaço e a ansiedade eram grandes, mas o foco não era passear em asfalto. Mas como estávamos bem à frente do Rogério, e as condições físicas dele talvez não fosse as mesmas do Ademir e minhas, entramos sentido restaurante Colméia, logo paramos em uma lanchonete, esperamos algum tempo, imaginamos que ele preferiria ir pelo asfalto e acabamos involuntariamente nos separando nos últimos 40km, não me arrependo de ter feito esse caminho, ainda consegui desfrutar de belas paisagens, conseguimos ver mais alguns tucanos voando, e enfrentamos mais alguns trechos de lama e subidas. Por volta das 11:30h do sábado, dia 21 de novembro de 2015, concluímos o “Caminho da Fé”.
Oitavo dia 76,4km, ganho de elevação 665m
Chegando ao Santuário, enquanto tentávamos localizar o Rogério, fomos abordados por várias pessoas, perguntaram sobre o “Caminho”, a maioria curiosos, ao nos ver naquela sujeira, com aquela bagagem imaginaram que estávamos chegando de longe. Logo o Rogério apareceu e fomos em busca do certificado de conclusão do Caminho. Não encontramos a família pagando a promessa, a jovem sra. com a filha e a mãezinha dela, mas acredito, estavam lá!
Embora o intuito de fazer o “Caminho da Fé” fosse basicamente o cicloturismo, estava imbuído em mim alguns sentimentos como o de pagar promessas, como observei durante toda a minha vida, principalmente na minha infância. Minha família era católica com atitudes e crenças arraigados. Minha mãe, há muitos anos havia prometido pagar uma promessa, essa promessa consistia em ir até o Santuário de Aparecida, ela faleceu e não conseguiu cumprir essa promessa, então levei um pertence dela comigo durante todo o “Caminho”, me fez parecer que de alguma forma saldaria a dívida que ela tinha. Também levei um pertence da minha netinha, para que fosse abençoado. A Fé nos move, independente de religião, cultura ou raça, e, é essa Fé que nos leva a realizar coisas que podem parecer impossíveis, é essa Fé que nos conduz a cada dia! Essa Fé nos acompanhou no “Caminho da Fé”.

Lendo o relato tem-se a sensação de que o “Caminho” consiste em puro sofrimento, não é essa a ideia que quero passar, foi difícil, momentos que parecia impossível, mas houve também momentos em que ficamos maravilhados com tanta beleza. Fomos recebidos, principalmente nas pousadas, com muita atenção, carinho, na simplicidade do jeito mais puro que existe nos fizeram sentir como se estivéssemos em casa, na Fazenda São José, no restaurante da Dona Zetti e na pousada da Dona Inês e vários outros que com algumas simples palavras nos apoiaram! Vão com Deus!

 

Relato do meu ponto de vista,

By Rosângela Luciani

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2 Comments

  1. Boa tarde

    Admirei muito este blog.

    Beijos!

    Marcio Henrique do Guia do Somatodrol

  2. Olá, tudo bom?

    Admirei muito este blog.

    Por mais sites idem a este!

    Alice Portal Shame Intelimax

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